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A prevenção e o combate ao diabetes foram objetos de audiência pública realizada no plenário da Câmara Municipal de Sorocaba na noite de terça-feira, 7, por iniciativa da vereadora Iara Bernardi (PT).

A convite da vereadora, o vereador Hélio Brasileiro (PMDB), que é médico otorrinolaringologista, presidiu o evento. Estima-se que 380 milhões de pessoas apresentam diabetes mellitus no mundo e 14 milhões no Brasil.

Segundo dados da Federação Internacional de Diabetes, divulgados pela Sociedade Brasileira de Diabetes, os afetados pelo diabetes no mundo podem chegar a 550 milhões em 2035. Estima-se também que, a cada 8 segundos, uma pessoa morre em decorrência de complicações do diabetes.

Além da autora e do presidente da audiência pública, a mesa dos trabalhos foi composta pelas seguintes autoridades: a gestora de Atenção Básica, Fernanda Coradini Carlos, representando o secretário de Saúde, Ademir Watanabe; a endocrinologista Waldirene Maldonado; Silmara Durigan, da Clínica Superbárica de Sorocaba; a nutricionista Nicole Pontes, da Associação de Diabetes de Sorocaba; a médica Cláudia Braga, do Ambulatório Pé Diabético da Policlínica Municipal; e o advogado Robson Roman Luques D’Angelo, da Associação de Diabetes de Sorocaba.

“É muito mais lógico, barato e menos danoso promover atividades físicas, orientações nutricionais e mudanças de hábito do que tratar as sequelas da doença”, afirmou Hélio Brasileiro na abertura dos trabalhos, lembrando, juntamente com a vereadora Iara Bernardi (PT), que a audiência pública foi realizada a pedido da Associação de Diabetes de Sorocaba. “Prevenção é fundamental, mas a rede de saúde tem problemas muitos sérios de atendimento, por isso o tema da saúde é recorrente aqui na Câmara”, afirmou a vereadora, acrescentando que não há recurso novo para a saúde no orçamento do próximo ano. No curso dos debates, Iara Bernardi lamentou, também, que a direção do Conjunto Hospitalar de Sorocaba e do Departamento Regional de Saúde de Sorocaba (DRS XVI) nunca compareçam às audiências sobre saúde na Câmara Municipal, enfatizando que se cogita até abrir uma CPI para tratar do assunto.

Pé diabético – A médica Cláudia Braga, da Policlínica, falou sobre o setor de pé diabético do hospital. O pé diabético são “quaisquer alterações neurológica, vascular ou infecciosa que podem ocorrer no pé de um paciente portador de diabetes”. De 2 a 5% dos pacientes que sofrem de diabetes podem desenvolver úlcera no pé anualmente e 85% das amputações são precedidas de úlceras no pé. Entre os sintomas do pé diabético estão: pé seco, amortecido, com pontadas e formigamentos; calosidades, úlcera e dedos em garra, entre outros. Como formas de prevenção, o paciente deve evitar andar descalço, hidratar os pés e usar palmilhas e meias de algodão sem costuras nem elásticos.

A enfermeira Pâmela Foglieni fez uma exposição sobre a oxigenoterapia hiperbárica, procedimento utilizado em várias especializadas, inclusive na prevenção e tratamento do pé diabético, uma consequência do diabetes que pode levar à amputação dos pés. Esse tratamento exige equipamentos – Câmara Monoplace (individual) e Câmaras Multiplace (para até 14 pacientes) – capazes de suportar uma pressão muito maior do que pressão atmosférica. Cada sessão dura de 90 a 12 minutos e, segundo a enfermeira, reduz o tempo de tratamento das feridas, a utilização de antibióticos e o número de cirurgias, como a amputação. Segundo ela, cerca de 80% das amputações podem ser evitadas com o uso da oxigenoterapia hiperbárica.

Prevenção do diabetes – Segundo a endocrinologista Waldirene Maldonado, que coordena o atendimento de diabetes no UBS do Cajuru, o número de diabéticos vem aumentando em virtude do envelhecimento da população, da maior urbanização e da progressiva prevalência da obesidade e do sedentarismo, bem como da maior sobrevida dos pacientes. “O diabetes é uma doença crônica de difícil controle; e não só no Brasil, é uma doença difícil de controlar em todo o mundo”, afirmou a médica, acrescentando que o diabetes é a principal causa de cegueira em pessoas com idade entre 20 e 74 anos e que um milhão de pessoas com diabete mellitus perde uma parte da perna em todo o mundo resultando em três amputações por minuto. É a também a principal causa de doença renal crônica. A médica também apresentou o serviço de prevenção ao diabetes desenvolvido na UBS do Cajuru.

A nutricionista Nicole Pontes, da Associação de Diabetes de Sorocaba (ADS), cuja sede fica na Rua Francisco Ferreira Leão, 232, na Vila Leão, informou a entidade desenvolve uma série de ações voltadas para a prevenção e tratamento do diabetes, como palestras em escolas e empresas e faz aferição gratuita de glicemia, entre outras atividades. Já o advogado da ADS, Robson D’Angelo, afirmou que o tratamento do diabetes é caro e muitas pessoas buscam a justiça para conseguir atendimento, especialmente medicamentos. “Por falta de legislação, o diabético não precisaria sofrer no Brasil”, afirmou, citando a Constituição e leis que garantem os direitos dos pacientes ao atendimento. “Infelizmente, não é isso o que acontece. Os pacientes com diabetes vivem um verdadeiro desespero para serem atendidos. Estamos vivendo um verdadeiro caos, especialmente a partir de 2016”, afirmou.

Enfatizou que há crianças morrendo, pessoas ficando cegas, tendo membros amputados e precisando de diálise por conta do diabetes. “Mesmo com ações judiciais, sentenças e acórdãos favoráveis aos pacientes, essas ordens judiciais nem sempre são respeitadas”, afirmou o advogado, citando o caso de vários pacientes que estão precisando de algum insumo ou medicamento. “Às vezes negam uma insulina que custa R$ 120 para uma pessoa que depois vai ter que fazer sessões de hemodiálise ou aplicações de injeções intravítreas a um custo de R$ 5 mil a R$ 6 mil por sessão. E temos paciente que já fez 18 sessões e está com 30% da visão”, explicou.

Ações da secretaria – A representante da Secretaria de Saúde, Fernanda Coradini Carlos, também enfatizou a importância da prevenção e disse que a rede básica de saúde conta, hoje, com uma equipe multidisciplinar voltada para a prevenção de doenças, incluindo o diabetes, que conta inclusive com profissionais da área de educação física, além dos profissionais de saúde, que desenvolvem trabalhos nas unidades de saúde, como grupos de caminhada.

Respondendo a um questionamento de um assessor do vereador Silvano Júnior (PV) e do advogado da ADS, sobre entrega de lancetas e tiras reagentes para os pacientes com diabetes, Fernanda Coradini disse que não há falta da lanceta, o que há é um limite de dispensação. “Antes, somente pacientes com diabetes tipo 1, gestantes e com mandados judiciais conseguiam pegar as seringas, tiras e lancetas. No início desse ano, os demais pacientes passaram a pegar esses insumos, numa quantidade reduzida: no máximo 30 seringas, 50 tiras e 50 lancetas para 50 dias. Posteriormente, os pacientes passaram a poder pegar 60 seringas, mas continuam recebendo lancetas e tiras para uma só medição por dia, o que é insuficiente. Mas é o que hoje podemos atender para não deixar ninguém sem nada. A intenção é retornar o fornecimento dessas tiras”, afirmou.

Sintomas do diabetes – O médico nefrologista Francisco Antônio Fernandes, ex-secretário de Saúde, disse que cerca de 50% dos pacientes de diálise são acometidos por diabetes. Fernandes apresentou uma palestra elaborada pelo endocrinologista Rafael Buck Giorgi intitulada “Fiquei Diabético. E Agora?”, com orientações para pacientes. “O mundo já é obeso e está ficando diabético”, afirmou. “Em geral, o diabetes é assintomático”, alertou, elencando alguns sinais que podem indicar a existência do diabetes: cansaço fácil; vontade frequente de urinar; emagrecimento, fome excessiva e excesso de sede; aparecimento de feridas com má cicatrização; visão turva; formigamento dos pés; impotência no homem e infecções ginecológicas nas mulheres. O diagnóstico é feito mediante o exame de glicemia em jejum. “Obesidade, sedentarismo e má-alimentação são os maus hábitos que levam ao diabetes”, enfatizou, alertando para a necessidade de controlar o açúcar e carboidratos presentes nos alimentos, especialmente os industrializados.

O diretor do Instituto de Hemodiálise de Sorocaba, o médico Jaelson Guilhem Gomes, entre outras questões, afirmou que há medicamentos de proteção aos rins, usados por diabéticos, que, mediante lei federal aprovada há cerca de cinco anos, já são distribuídos gratuitamente no Programa Farmácia Popular, mas não na rede básica de saúde. “É uma situação absurda. Se o remédio é de graça, porque não tem na unidade básica de saúde?”, indagou. Também se questionou porque a prevenção ao diabetes tem sido feita na UBS do Cajuru e não nas demais unidades. A representante da Secretaria da Saúde afirmou que, nas 32 unidades básicas de saúde, acontecem ações de prevenção com grupos, mas em algumas localidades há baixa frequência.

Diabetes na infância – Paulo, pai de uma criança com diabetes observou que não é fácil um pai ver seu filho dois anos tomar oito injeções por dia e lembrou que, para esse tipo de diabete, o tipo 1, que afeta crianças, não há prevenção. “Fura-se o dedo da criança pelo menos oito vezes por dia. E ela precisa de medicamentos. E ficamos indignados com o fato de que a DRS não esteja aqui. Ninguém consegue falar com a DRS. É preciso haver uma pressão maior sobre ela. Não é possível que, mesmo com sentença judicial favorável, um paciente fique cinco meses sem fita para mediação de diabetes”, afirmou, reiterando sua indignação com a ausência de um representante da DRS na audiência.

No final da audiência pública, Iara Bernardi lamentou a ausência do secretário da Saúde, Ademir Watanabe, enumerou uma série de problemas em várias áreas da saúde e criticou o fato de terem sido nomeados como diretores de áreas da Secretaria da Saúde três pessoas que não são profissionais de saúde. “Estamos discutindo o orçamento e não há previsão de contratação de profissionais. Vamos terceirizar tudo para entidades privadas que cobram o triplo do que custaria o mesmo serviço feito por funcionários públicos?”, indagou a vereadora, ressaltando que os mais de R$ 500 milhões previstos para a saúde no próximo ano são uma quantia considerável, mas falta gestão.

Fonte: Câmara Municipal de Sorocaba

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