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Viver em sociedade, com responsabilidades do cotidiano, ter liberdade para ir e vir e compartilhar a rotina doméstica com outras pessoas.

Essas são conquistas dos moradores das Residências Terapêuticas (RTs) de Sorocaba.

Inseridos no processo da desinstitucionalização da saúde mental, esses cidadãos deixaram de ser pacientes internados em Hospitais Psiquiátricos para viver em casas e têm conquistando a cada dia mais independência, autonomia e, principalmente, o respeito dos vizinhos e da comunidade.

Na semana em que é lembrado o Dia da Luta Antimanicomial (18/05), a realidade dos moradores das RTs é considerada uma conquista social.

“Eu vou para o centro, pago contas da casa, faço compras. Também faço o almoço, a janta e o café. Tenho uma vida normal aqui”. É desta maneira objetiva e muito segura que Cícero da Silva, de 53 anos resume a sua vida atualmente. Morador de uma residência terapêutica na Vila Jardini, ele fala com entusiasmo da rotina que conseguiu assumir, mas comenta também do tempo que não podia fazer isso tudo pois estava internado em um hospital psiquiátrico. “Saí de lá quando perceberam que eu podia fazer todas essas coisas normalmente. Não precisava mais ficar no hospital”,  explica.

Cícero, Aparecido, Gabriel, Jenilton, Maria Aparecida, Carla, ao todo são 240 pessoas vivendo em 26 RTs mantidas em Sorocaba. E nos próximos meses, mais 140 pessoas terão esta realidade em 14 novas unidades que estão em processo de contratação pela Prefeitura. As RTs são exclusivamente masculinas ou femininas e também há casas mistas. Ficam em vários bairros da cidade e todas são supervisionadas por responsáveis técnicos e possuem cuidadores que auxiliam, monitoram e cuidam do que for preciso para as casas funcionarem.

A chegada dos novos moradores é sempre algo organizado e planejado para garantir a inserção da pessoa na casa. “Preparamos as outras moradoras e, durante um tempo, atuamos mais focadas para esta adaptação. Muitas vezes, elas já se conheciam do hospital e, nestes casos, a adaptação é muito facilitada”, comentou Dirceia Aparecida Greggio, encarregada de nove residências.

Nas RTs a autonomia e a independência dos moradores vão sendo estimuladas aos poucos, sempre respeitando as individualidades e o tempo de cada um e, muitas vezes, funcionando como uma escola. “Quando saem do hospital, em geral depois de internações longas, muitos não sabem fazer tarefas simples, como tomar banho, não sabem como funciona uma casa, não conhecem dinheiro. Vamos trabalhando com eles porque todos são capazes de aprender”, comentou Marisa Peres Fattori, psicóloga, responsável técnica em duas residências com 20 moradores.

Entre essas pessoas, está Carla dos Santos, de 35 anos, que viveu sete anos internada em hospital e hoje tem total independência para realizar tarefas da casa e também para atividades pessoais. Conhecida pela organização, Carla é elogiada pela capacidade de cuidar das compras sempre conseguindo fazer economia e atender aos pedidos das outras moradoras da casa.

Também conhecido pela independência, Aparecido José dos Santos, de 47 anos, vai sozinho para a terapia e para o pronto atendimento sempre que necessário, também frequenta a escola onde está aprendendo a escrever no programa de Educação para Jovens e Adultos. “Eu faço tudo. Estendo roupa, recolho a roupa, faço almoço e ando de ônibus sozinho”, explicou. Vaidoso e cuidadoso, é bem relacionado na casa e querido pelos vizinhos da Vila Angélica, conforme contou a responsável técnica da RT onde ele vive, Cristiane Lira.

Desinstitucionalização

A desinstitucionalização da Saúde Mental é um compromisso público firmado por meio de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assinado entre municípios da região de Sorocaba, o Ministério Público, Secretarias Municipais e Estadual da Saúde e Ministério da Saúde. A atual coordenação da Saúde Mental da Prefeitura de Sorocaba tem atuado diretamente no processo ajudando a localizar a origem dos pacientes, fazendo contato com familiares e os municípios identificados.

A equipe da coordenação também auxilia os gestores das cidades contatadas para que possam tomar as providências necessárias, como abertura de residências terapêuticas e de centros de atendimento psicossocial (Caps) para providenciar a alta e a transferência dos pacientes. “Nosso trabalho é garantir o encaminhamento adequado desses pacientes de acordo com as necessidades de cada um, com dignidade e sem prejuízo à assistência, ao tratamento e, principalmente, ao bem- estar dessas pessoas”, explicou a coordenadora de Sorocaba, Fernanda Biudes Consul.

Em 2010, Sorocaba tinha quatro hospitais psiquiátricos com 1.355 leitos. No início deste ano, o Hospital Vera Cruz, que é o único ainda em funcionamento e chamado de Polo de Desinstitucionalização Vera Cruz, tinha 301 pacientes. Atualmente, após as últimas altas da semana passada, a 245 pessoas estão no hospital.

Fonte: Agência Sorocaba de Notícias

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