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Vinte e nove de maio de 1983. Maria da Penha Maia Fernandes, então com 38 anos, foi acordada pelo marido quando o dia estava nascendo. O som do disparo de uma arma a tirou de seus sonhos e a imergiu no que viraria seu pior pesadelo.

O tiro, que por pouco não tirou sua vida, a deixou paraplégica. Quem um dia ela imaginou ser o amor de sua vida foi capaz de tentar tirá-la e se tornou o maior de seus medos. Mas com o tempo o pavor evoluiu para coragem.

A cearense foi à luta pelos seus direitos e deu nome à lei que ampara as mulheres que, assim como ela, foram vítimas de violência doméstica. A conquista completa dez anos neste domingo (07), quando foi sancionada, em 2006. E para continuar a batalha por um mundo melhor e ajudar as tantas Marias da Penha que sofreram como ela, Sorocaba criou o Centro de Referência da Mulher, administrado pela Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes).

De janeiro a junho deste ano, foram realizados 1.455 atendimentos às mulheres vítimas de violência. Conforme a coordenadora do Cerem, Paula Andrea Vial Silva, Sorocaba é referência no apoio a essas mulheres e oferece, além do Cerem, diversos outros serviços com o mesmo objetivo. “Muitas vezes a mulher que foi agredida não sabe qual direção tomar, não conhece a lei. Ela precisa de alguém que ouça, que compreenda a situação sem julgamentos para que ela se sinta apoiada e fortalecida”, ressalta.

Segundo ela, se a mulher agredida sabe que existe uma rede de serviço que ela pode contar, isso facilita. “Essa mulher sabe que só denunciar por denunciar não vai adiantar. Ela precisa de um respaldo para que ela não se sinta sozinha e não volte a ser vítima”, frisa.

Agressões múltiplas

De acordo com Paula, quando a mulher chega ao atendimento do Cerem, dificilmente ela relata apenas um tipo de violência. “A agressão psicológica acontece com mais frequência que a física e, quase sempre a precede”, explica.

Essa informação pode ser confirmada pelo “Mapa da violência 2015”, pesquisa realizada pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Conforme o estudo, em 2013, das mais de 2,4 milhões de mulheres agredidas no País, cerca de 1,16 milhão foi violentada psicologicamente. A agressão física ficou em segundo lugar, com cerca de 1 milhão de notificações, seguida da sexual, com 13 mil casos, além de outras 208 mil.

Violência: um ciclo de três fases

Ainda conforme Paula, quando a mulher que sofreu algum tipo de agressão passa por atendimento no Cerem, as profissionais explicam que ela está vivendo o chamado ciclo da violência, composto por três fases: tensão, explosão e lua de mel.

A primeira é caracterizada pelas ameaças, xingamentos e menosprezos. “Quando essas atitudes são constantes, podem culminar na segunda fase, quando tende a ocorrer agressão física”, completa. A última fase é marcada pelo arrependimento. “É quando o homem diz que não vai fazer novamente, que estava nervoso no momento. E muitas vezes a mulher perdoa e quer tentar novamente”, comenta.

Conforme ela, o perdão é concedido por inúmeros motivos. “A mulher depende financeiramente desse homem, pensa que é dependente emocionalmente ou tem medo dele fugir com os filhos”, exemplifica. Mas, Paula afirma que, sendo um ciclo, vai passar um tempo e depois iniciará tudo de novo. “A mulher precisa estar ciente disso, por isso explicamos no atendimento”, conta.

Julgamento

Além do medo de o agressor fazer mal novamente à mulher ou aos filhos, outro motivo que dificuldade a vítima a procurar ajuda é o medo do julgamento das pessoas. Conforme Paula, quando a vítima começa a dar indícios de que está sofrendo, muitas vezes é mal interpretada. “As pessoas seguem o ditado ‘briga de marido e mulher não se mete a colher’ e preferem não se envolver. Ou ainda pensam que é mulher de malandro e gosta de apanhar. Frequentemente a gente ouve isso”, comenta.

Para que os profissionais que atenderão esta mulher que está num momento frágil não a julguem e saibam como levar a situação, Paula diz que os funcionários das diversas áreas de proteção à mulher passam por capacitações frequentes. “Se essa mulher for num lugar buscar ajuda e for julgada, ela não vai se abrir, não vai ter coragem de falar. Vai voltar para casa e sofrer novamente. Isso não pode acontecer.”

“O Cerem existe para que essa mulher possa se fortalecer, receber apoio e saiba que tem alguém para ouvi-la e que vai compreendê-la sem julgamentos”, complementa.

Cada atitude no seu tempo

Conforme Paula, há mulheres que têm medo de buscar o serviço e ter que tomar uma atitude de imediato. “Muitas vezes a mulher pensa que precisa ter registrado boletim de ocorrência para procurar ajuda, mas não é necessário. Ela vai ser orientada primeiro. Tudo vai depender do que ela vai querer posteriormente. Se quiser buscar a medida protetiva, aí ela vai precisar de um boletim de ocorrência”, explica.

Mas a vítima pode buscar espontaneamente o Cerem para receber orientação, ser ouvida e depois decidir quais encaminhamentos quer. Nos casos em que a mulher tem que sair imediatamente de casa, para não acontecer nada mais grave, ela é encaminhada ao abrigo “Valquíria Rocha”, mantido pela ONG Centro de Integração da Mulher (CIM Mulher). Lá poderá ficar abrigada com seus filhos até que a situação seja resolvida.

Segunda chance

“Não adianta a gente dar apoio somente à mulher. O agressor precisa ser tratado. Pode até ser que ele não continue o relacionamento com essa mulher, mas ele vai se relacionar com outras”, frisa Paula.

Para ajudar a fazer com que o agressor entenda que a atitude dele é criminosa e não cometa o mesmo com outras mulheres, o CIM Mulher, ONG conveniada com a Prefeitura de Sorocaba, instituiu o Centro Especializado de Reabilitação do Autor em Violência Doméstica (Cerav).

Conforme Paula, todos os homens que agridem mulheres que recebem a medida protetiva, citados em situações que são atendidas nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas) ou no Cerem, são encaminhados ao Cerav.

Campanha nacional

No próximo dia 19, a Vara de Sorocaba especializada em violência doméstica vai organizar na cidade a 5ª campanha nacional da Justiça Pela Paz em Casa. O evento será realizado às 14h no Salão do Júri do Fórum Ministro Piza e Almeida, localizado na Rua 28 de Outubro, 691, Alto da Boa Vista. A ação acontecerá na mesma data em todo o País e é aberta à população.

Será abordada a questão da violência contra a mulher e a inserção da mulher no mercado de trabalho. “A mulher vai poder entender como funcionam as políticas públicas dos direitos das mulheres”, explica Paula. A entrada é gratuita e as inscrições podem ser feitas no Cerem, pelo telefone (15) 3235-6770.

O Cerem

O Cerem presta, gratuitamente, atendimento especializado e contínuo às mulheres com mais de 18 anos que moram em Sorocaba e conta com o apoio do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM).

O primeiro atendimento é feito pela assistente social. “A profissional mapeia a situação, para que possa levantar todo o histórico de violência. Muitas vezes a mulher relata que é agredida desde a infância”, complementa. Depois, a vítima é direcionada para o profissional mais indicado que atua na unidade.

A unidade funciona como uma articuladora de prestação de serviço de todos os órgãos protetivos existentes em Sorocaba. “A mulher que for vítima de violência pode procurar qualquer uma das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Delegacia da Mulher, os Centros de Referência em Assistência Social (Cras), que será amparada e encaminhada ao Cerem”, diz.

O Cerem funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e está localizado na Avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, 440, no Centro, próximo à Rodoviária.

Fonte: Agência Sorocaba de Notícias

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