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As mulheres tiveram de lutar bastante para conquistarem o seu espaço na sociedade. Apesar de muitas conquistas, essa batalha ainda não acabou.

A igualdade de gêneros em todos os segmentos da vida social ainda não é uma realidade no Brasil e em muitos outros países do mundo.

E isso pode ser demonstrado com números. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em seu estudo Estatísticas de Gênero 2014 – Uma análise dos resultados do Censo Demográfico 2010, as trabalhadoras do sexo feminino ganham 30% a menos do que os do sexo masculino, se comparados os valores recebidos pelo mesmo cargo ocupado.

Essa disparidade também se mostra nos cargos de alto poder. No Poder Público, por exemplo, as mulheres são sempre minoria, mesmo que hoje Dilma Rousseff (PT) seja presidente da República. Nas eleições deste ano, apenas uma mulher foi eleita como governadora em todo o País: Suely Campos (PP), em Roraima.

Em Sorocaba, apenas cinco representantes do sexo feminino possuem cargos públicos, por meio de escolhas políticas e dos eleitores. Na Câmara Municipal, Neusa Maldonado (PSDB) atua em meio a 19 vereadores homens. E olha que Ela só está lá por ter assumido como suplente, pois se dependesse das escolhas dos eleitores, nenhuma mulher atuaria como legisladora na cidade.

Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), Maria Lúcia Amary (PSDB) ocupa uma cadeira como deputada estadual. No ano que vem Ela continuará no cargo, pois foi reeleita nas eleições deste ano. Na Câmara dos Deputados, em Brasília, Iara Bernardi (PT) trabalha como deputada federal, cargo assumido como suplente em 2012, e que deverá ser deixado no ano que vem. Inclusive, a partir de 2015, Sorocaba terá dois homens representando a cidade no Congresso.

Já no governo municipal, apenas duas mulheres figuram em meio à supremacia masculina: a vice-prefeita e secretária de Desenvolvimento Social, Edith Di Giorgi, e a secretária de Cultura, Jaqueline Gomes da Silva.
O machismo, que ainda existe em nossa sociedade, e a falta de apoio político são os motivos principais que essas representantes do sexo feminino apontam para justificar a ausência de mais mulheres representando Sorocaba em altos cargos públicos.

Só pelas cotas

Desde 1996, a legislação eleitoral estabeleceu que os partidos políticos devem sempre contar com uma cota de 30% de candidatas mulheres. Apesar de ter o objetivo de fazer com que mais representantes do sexo feminino participassem das eleições, a medida não trouxe tantos benefícios, segundo as entrevistadas pelo caderno Ela.
A deputada federal Iara Bernardi, por exemplo, afirma que nenhuma ação de intensificar a participação de mulheres na política conseguiu, ainda, fazer com que a presença delas aumentasse nos cargos de poder. Segundo Iara, muitas mulheres são chamadas pelos partidos políticos apenas para que a lei seja respeitada, porém não são preparadas para realmente se mostrarem como candidatas com condições de serem eleitas. “Quando votamos as leis de cotas, quando os partidos tiveram obrigação de ter cargos femininos, vi muitas mulheres se animarem, mas saíram decepcionadas, pela falta de estrutura, apoio, recursos e pela inexperiência”, afirma.

A vereadora Neusa Maldonado possui a mesma opinião. Para Ela, falta um pouco mais de vontade dos partidos de orientarem melhor suas candidatas, para que elas entendam como podem realmente conquistar a confiança dos eleitores. “Muitas vezes os partidos políticos convidam mulheres para preencher cotas, numa questão de lei, pois há necessidade de ter números suficientes para o partido estar em ordem. Mas talvez não orientam, elas não pesquisam aquela vocação, a ideia política. Muitas mulheres não sabem da vocação que elas têm”, declara.

Iara defende que a melhor forma de mudar essa situação seria promover uma reforma política, para que uma maior participação feminina fosse realmente uma realidade na disputa por cargos do Poder Público. “Coloco muita esperança na reforma política, porque sem a presença feminina, não tem como dizer que existe democracia de fato. Hoje 51% da população é feminina e não está bem representada. Espero que o Brasil se debruce sobre isso”, ressalta.

Espaço está crescendo, mas a passos de formiga

Para a cientista política da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Maria do Socorro Sousa Braga, o mundo feminino tem encontrado maiores espaços dentro da política, porém o crescimento no número de mulheres eleitas para cargos de poder tem sido bem pequeno a cada eleição. Maria do Socorro considera ser bastante recente essa maior entrada de mulheres na política, por conta da lei de cotas, por exemplo. “Esses incentivos ajudam, mas se os partidos usassem esses incentivos para educar mais a mulher para a vida política, o número poderia aumentar. A procura das mulheres não é tão grande, até porque a cultura não incentiva isso. Com a dupla e tripla jornada das mulheres, não sobraria tempo para fazer uma carreira profissional dentro da política”, afirma.

Assim como citado pelas mulheres no poder de Sorocaba (nesta página e na página2), a falta de divisão dos trabalhos domésticos com os homens também prejudica a entrada das mulheres na política. Por conta disso, a maioria das pessoas do sexo feminino que decidem se aventurar nesse meio, segundo a cientista política, seriam aquelas que fazem parte de famílias que, tradicionalmente, se lançam como candidatos a cada eleição, e também aquelas que possuem participação em movimentos sociais e sindicais, já que encontram mais incentivos para se dedicarem a uma carreira política.

A falta de profissionalização da mulher também é indicada como um obstáculo a ser vencido por aquelas que queiram assumir cargos de poder. “Falta profissionalização dessa mulher, sobre o que fazer em cada área, domínio do traquejo político. A falta disso dificulta a entrada das mulheres”, relata.

O fato de o Brasil contar hoje com uma presidente, a Dilma Rousseff (PT), serve como um incentivo para as mulheres que almejam ocupar um cargo como esse, de acordo com Maria do Socorro. Mas ela acredita que quanto mais Dilma se mostrar competente como presidente e segura com suas decisões, mais esse sentimento de que “é possível” crescerá entre as mulheres. “Quanto melhor o desempenho de qualquer uma, há um maior espaço para ampliar esse lugar das mulheres nos partidos. Essa é a primeira experiência do Brasil (em ter uma mulher como presidente), então fica todo mundo de olho”, destaca.

Além da falta de ações políticas que façam com que as mulheres realmente consigam se mostrar como candidatas com condições de se elegerem, a chamada “tripla jornada” das mulheres também é apontada como algo que as prejudica para que elas se disponham a tomar cargos de representatividade na sociedade. Isso se deve ao fato de culturalmente, as pessoas do sexo feminino serem as responsáveis por cuidar da casa, sem haver uma divisão igualitária dos afazeres com os homens.

A vice-prefeita e secretária de Desenvolvimento Social, Edith Di Giorgi, declara que hoje podemos dizer que as mulheres assumiram o seu posto no mercado de trabalho, sendo que em algumas áreas de atuação, a supremacia feminina é realidade – mesmo que isso não se reflita na igualdade dos salários. Porém, ainda não aconteceu de os homens assumirem, também, os trabalhos domésticos. “Isto ainda continua sendo uma obrigação da mulher. Os cargos de chefia, de maior responsabilidade, normalmente são uma coisa que você tem menos horários definidos, tem responsabilidades fora de hora, tem obrigações que fogem de um horário fixo definido, e isso é difícil para a mulher”, explica.

Por existir essa “divisão de responsabilidades”, Edith declara que as mulheres acabam cobrando a si próprias desses afazeres domésticos, o que pode até ser pior. “A gente ainda introjeta dentro da gente que isso é nossa parte. As mulheres ficam muito preocupadas quando elas não desempenham essas funções. Se não estão dando toda a atenção para os filhos, para o marido, para a casa, embora estejam fazendo coisas importantes em outras áreas, muitas vezes as mulheres se sentem culpadas. Então eu falo que a cobrança interna é pior do que a externa, porque ela nos atormenta muito mais do que a externa.”

Machismo

Mesmo que implicitamente, colocar a mulher como a única responsável pelo zelo da casa pode ser uma atitude machista. E o machismo ainda é apontado como algo muito presente no meio político, assim como na sociedade.
“Sem dúvida que há machismo. Os homens continuam sendo amplamente majoritários na política institucional. Nós somos a maioria do eleitorado, dominamos quase todas as áreas do mercado, mas ainda não avançamos o suficiente para termos o nosso espaço na política. Apesar disso, podemos afirmar que isto está mudando. Na última eleição presidencial, por exemplo, vimos três mulheres entre as quatro primeiras posições. Somos mulheres, somos brasileiras e estamos aptas a assumir o nosso lugar em qualquer área de atuação”, afirma a deputada estadual, Maria Lúcia Amary.

A deputada relata que as dificuldades para uma mulher ocupar um cargo público são sempre maiores do que as enfrentadas pelos homens, algo que ela sentiu na pele quando decidiu se candidatar. “A partir do momento que mostramos firmeza e coerência entre o discurso e a ação, pavimentamos um caminho. Chegamos ao comando do PSDB em Sorocaba justamente por isso”, conta.
Iara Bernardi também enfrentou o machismo. Ela relata que foi abrindo o seu caminho dentro da política, por meio de suas lutas pela democracia e contra a ditadura militar, além de ter participado da fundação do PT em Sorocaba, conquistando o seu espaço e o respeito de seus colegas. Iara, inclusive, foi a primeira vereadora mulher eleita em Sorocaba, no ano de 1982, junto com a vereadora Diva Prestes.

Estereótipo de liderança ainda pe masculino

As mulheres no poder em Sorocaba consideram que o sexo feminino possui um diferencial, que pode fazer diferença na hora de tomar decisões a favor da sociedade: o olhar feminino. Chamado pela vereadora Neusa Maldonado como o “sexto sentido”, as entrevistadas declaram que a mulher possui um olhar mais sensorial frente às mais diversas situações, o que pode fazer com que elas tenham mais clareza na hora de tomar uma decisão.

“Ela percebe a intenção na fala. Não é só os projetos serem bons, porque de bons projetos está cheio, mas precisamos ver se não tem nenhuma perniciosidade ali, se não é para encurralar alguém logo mais, se não vai interferir numa esfera que não é sua. A mulher percebe isso com mais clareza, mais rapidez, percebe o jogo”, afirma Neusa.
Iara afirma que o olhar feminino é mais abrangente e a mulher consegue trabalhar melhor em grupo. “Tudo isso o mercado já notou. Elas estão sendo chamadas. O mercado viu que a visão feminina faz bem, mas isso não quer dizer que elas têm melhores salários ou ocupam posições de poder”, critica.

Maria Lúcia defende que uma das peculiaridades da mulher seria um poder maior de resolutividade e de “fazer as coisas acontecerem”. “A mulher que ocupa um cargo de comando, seja público ou privado, consegue desempenhar satisfatoriamente as suas atribuições por ser mais sensorial, mais atenta ao contexto, enquanto o homem é mais racional”, diz. “As lideranças femininas se caracterizam pelo profissionalismo e pelo comprometimento. O que mais chama a atenção no perfil feminino é a forte transparência com seus colaboradores, buscando a união dentro e fora das instâncias onde está, abrindo espaço para que os colaboradores compartilhem a gestão de uma forma harmônica e organizada”, complementa.

Ruim?

Mesmo que considere como algo positivo, Edith Di Giorgi declara que a maior sensibilidade da mulher pode ser vista, por alguns homens, como algo negativo para alguém que está no poder. Segundo ela, ainda existe muito preconceito contra as características psicológicas da mulher. “As pessoas ainda associam que para você ser uma boa liderança, não pode ser tão emocional. Ainda existe um estereótipo de chefia, que é masculino, de que tem ser duro, completamente racional, algo que eu acredito que ninguém seja. Então as próprias mulheres, enquanto possíveis candidatas a cargos de poder, ainda estão impregnadas dessa cultura. O que faz com que quando algumas mulheres assumem o poder, elas negam suas próprias características, se moldam a um modelo masculino e aí fica muito estranho. Você não consegue se moldar a algo que você não é, então vira uma caricatura”, considera.

Desde que seja uma opção

Edith defende que as mulheres devem ocupar mais cargos de poder, para que possam representar melhor a maioria da população e garantir a igualdade de gênero no Poder Público de qualquer esfera. Mas ela também acredita que não seja ruim uma mulher não querer ocupar essa posição, preferindo ser dona de casa, por exemplo. “Se a pessoa se sente realizada nessa opção, não tem nada de errado, seja homem, seja mulher. Tem de errado quando ela não teve nenhuma outra possibilidade, quando foi uma imposição e não uma opção. Eu não acho que existe um valor maior entre um ou outro. Eu não acho que uma mulher presidente tem mais valor do que uma mulher dona de casa. Todas as funções são necessárias para a sociedade. Mas é preciso que tenhamos essa igualdade de gênero na hora que as possibilidades estiverem abertas”, diz.

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul

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