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Dentre todas as ferramentas surgidas com o advento da internet, a Wikipedia é uma das mais revolucionárias, seja por colocar ao alcance de qualquer usuário da rede uma enciclopédia em constante evolução e atualização, seja pelo formato colaborativo adotado em sua feitura, que permite a toda pessoa criar, editar ou até mesmo eliminar verbetes.

Obviamente, o grande diferencial desta enciclopédia on-line — o fato de ser uma obra coletiva e aberta — é também seu grande problema, já que pessoas mal-intencionadas ou despreparadas podem usar a plataforma digital para difundir informações distorcidas ou mentiras.

Para prevenir esse mal, a Wikipedia adota o princípio da verificabilidade, isto é, os artigos devem citar fontes on-line (notícias, artigos, páginas oficiais), publicadas por pessoas ou entidades confiáveis que não sejam o próprio autor/editor do verbete, e que funcionam como lastros referenciais, como ocorre nos trabalhos acadêmicos. A consulta às fontes da informação apontadas na seção “referências”, no rodapé dos artigos, ajuda o leitor a se precaver contra as informações tendenciosas que escaparem à vigilância dos próprios colaboradores (eles são autorizados a excluir artigos sem fontes). Mesmo assim, ocorrem abusos.

O mais recente — e escandaloso — mau uso da Wikipedia foi noticiado na sexta-feira, pelo jornal O Globo: alguém, não se sabe quem, editou os perfis de dois jornalistas da Rede Globo e incluiu informações — segundo eles, falsas ou distorcidas — para prejudicá-los. A notícia teria poucos desdobramentos não fosse por um detalhe: a publicação foi feita por meio de um computador do Palácio do Planalto, prédio onde está localizado o gabinete da presidente da República. A divulgação da fraude causou mal-estar e forçou o governo a anunciar um “procedimento apuratório” para tentar identificar o responsável pela publicação.

O episódio serve como advertência aos eleitores, sobre os riscos de, como diziam os antigos, comprar gato por lebre neste período eleitoral. Com 60 milhões de usuários ativos no País (29,7% da população total), segundo levantamento de março deste ano da Nielsen Ibope, a internet se tornou um instrumento essencial para a conquista de votos. E, naturalmente, a gestão de informações — que inclui espalhar notícias boas e monitorar as ruins, para respondê-las antes que causem grandes estragos — assumiu papel estratégico nas estruturas de campanha.

Além dos boatos — que, repetidos c comentados inumeráveis vezes, acabam sendo aceitos como verdades por uma parte do público –, há outros artifícios mais sutis e que podem enganar o eleitor. Alguns, inclusive, são aceitos como regras do jogo e não chegam a ser denunciados pelos concorrentes, em parte porque todos recorrem a eles, em parte porque não consistem propriamente em mentiras, mas em filtragens seletivas de informações, destinadas a blindar os candidatos contra a divulgação de fatos potencialmente negativos e a disseminar aquilo que, imagina-se, causará boa impressão no eleitorado.

Nesse cipoal de informações duvidosas, quem não tem o hábito de confirmar as notícias em fontes confiáveis pode acabar enredado. A dificuldade começa por definir o que seja confiável. Órgãos de imprensa com histórico de imparcialidade, blogues e sites desvinculados de partidos e governos, cujos responsáveis não se escondem no anonimato ou atrás de codinomes, geralmente se encaixam nessa definição, mas as exceções são tantas que nem se pode chamar a isso de regra. Em última análise, será o esforço e o nível de informação de cada pessoa, aliado a sua capacidade de pesquisar, analisar e tirar conclusões, o que a tornará mais ou menos vulnerável à mentira.

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul