Tags

,

O primeiro e o último degrau das escadas da Escola Municipal Oswaldo de Oliveira, no Éden, são pintados de vermelho. O piso é antiderrapante e há corrimão.

O 4º ano D, da professora Elisabete Cristina Benites, tem um giz especial, de cor forte e que é plastificado. Na lousa, as letras são maiores e a sala dispõe, entre outros recursos, de lupa.

Adaptações feitas para atender a aluna Jaqueline Dinalli Ortiz, 9 anos, que tem baixa visão. Os serviços de apoio da instituição são os mais variados e possibilitam com que Jaqueline e outros alunos com deficiências – 19 ao todo – sintam-se inseridos e atendidos em suas necessidades, ao mesmo tempo em que lhes concedem independência.

No caso de Jaqueline, a professora Elisabete conta que a garota começou a usar uma lupa recomendada pelo oftalmologista em abril.

“Antes ela usava uma mais simples, manual, que precisava controlar o grau aproximando ou distanciando a lupa, o que era mais difícil”, recorda a professora. Antes também era preciso ampliar e imprimir as atividades. “Agora ela tem mais autonomia com essa lupa, melhorou muito o aprendizado”, observa Elisabete.

Quando uma escola tem alunos com necessidades específicas, os professores se tornam mais observadores para poder atender esses estudantes da melhor forma possível.

Elisabete, por exemplo, percebeu que a lousa digital não seria uma boa opção para a sua sala de aula, por ser branca. “A lousa tradicional é melhor. Tem também a questão da luz, a sala precisa estar com a cortina fechada porque Jaqueline tem fotofobia e a claridade a atrapalha demais”, diz a professora, que se sente muito orgulhosa com o desempenho de sua aluna.

Além das boas notas, Jaqueline desenha muito bem. “Ela é uma ótima estudante, tem muita força de vontade. Tudo ela faz com muita luta.”

Em breve Jaqueline vai ganhar outra lupa, já comprada e que será doada pela escola para ela usar em casa.

Aparelho FM ajuda a ouvir melhor os sons: Maurício Cassiano Silva tem 12 anos. Está aprendendo diversas palavras, muitas delas bem simples e que faziam parte do seu cotidiano há tempos, porém desconhecia, como por exemplo sofá.

Estudante da 5ª série, também aluno da escola Oswaldo de Oliveira, Maurício tem surdez desde o nascimento. Frequenta instituições especializadas e desde pequeno costumava usar um aparelho no ouvido, para conseguir escutar, porém esse tipo de aparelho amplifica demais o ruído externo e dificulta o entendimento.

Agora, uma nova tecnologia tem possibilitado com que pessoas com determinado tipo de surdez ouçam melhor os sons.

É o aparelho FM, que vem sendo garantido a estudantes de 5 a 17 anos pelo governo, por meio de uma portaria aprovada neste ano, que possibilita atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Para usar o aparelho é preciso fazer uma cirurgia de implante coclear (dispositivo eletrônico para proporcionar sensação auditiva próxima ao fisiológico).

“Ele fez o implante em maio do ano passado. Depois de 40 dias foi ativado e, em agosto, ele recebeu o aparelho FM”, conta Martha de Cássia Christiano, professora de Maurício desde o ano passado.

O aparelho funciona da seguinte forma: a professora fica com um dispositivo, que tem um microfone, então sua fala é captada e o som é enviado sem fio ao aparelho auditivo inserido em Maurício.

A intensidade e a qualidade do som permanecem constantes mesmo com a distância entre quem fala e quem ouve.

O sistema FM melhora o reconhecimento do som sem ter ruído de fundo.
A professora disse que com o tempo percebeu que Maurício passou a ganhar vocabulário.

“A expressão que ele tem hoje, não tinha há um ano. A dicção, a pronúncia, eram feitas com dificuldade, e agora os colegas de classe entendem mais o que ele fala.

A interação é melhor, porque o Maurício consegue ouvir como é a pronúncia.” Antes, a professora tinha de ficar concentrada na frente de Maurício para que ele lesse os lábios dela.

“Tenho mais mobilidade na sala de aula. O Maurício ouve a minha voz sem o ruído do ambiente, pois antes não conseguia identificar muito os sons por causa disso, afinal ele ouvia o ruído da classe toda”, acrescenta Martha, que atende 30 alunos.

O estudante, por ficar muito concentrado na professora e tentar entender algo, tinha a interação com as outras crianças limitada. Maurício, que aprendeu Libras, a linguagem dos sinais, agora aprende a falar a língua portuguesa. “Será uma conquista devagar”, esclarece a professora.

O aparelho da professora vai na mochila e ele pode levar para casa. Lá, o estudante usa para assistir filme, falar com a mãe, entre outras coisas. “Uso para ler a lição pra ele, eu o ajudo”, conta Vânia Cassiano Silva, mãe de Maurício.

Desde que começou a usar o sistema FM, o filho chega em casa falando como foi a aula. “Mudou tudo, ele consegue ouvir direito e de tanta alegria por conseguir identificar os sons, ele gosta de repetir o que ouviu.”

Vânia lembra que antes Maurício conseguia falar poucas coisas. O outro filho dela, de 3 anos, também tem surdez, mas está crescendo ouvindo os sons e aprendendo as palavras pois usa o aparelho FM.

Miriam Rosa Torres de Camargo, chefe de seção de apoio multidisciplinar do município, é a responsável pela implantação e acompanhamento do projeto de uso do sistema FM para deficientes auditivos, junto com a Associação de Pais Amigos de Deficientes Auditivos de Sorocaba (Apadas) na rede pública municipal e estadual de ensino. “É um projeto realizado pela USP e UFSCar em parceria com o Ministério da Educação (MEC)”, esclarece.

Ações especializadas e em horários alternativos: A Escola Municipal Oswaldo de Oliveira tem uma sala de recursos multifuncionais, que atende os alunos com deficiência em um horário alternativo.

O objetivo é realizar com eles um reforço escolar e auxiliá-los onde têm mais dificuldade de aprendizado.

Cristiane Pereira de Camargo Moraes, professora da sala, disse que atende ao todo 19 estudantes, alguns de outras escolas, situadas não apenas no Éden.

Há crianças que se locomovem do Cajuru e de Aparecidinha. Entre eles, além de Jaqueline e Maurício, frequentam a sala seis cadeirantes, uma aluna com síndrome de Down, dois com deficiência intelectual, outros dois com surdez e um autista.

Os recursos da sala são os mais variados. Para a criança que tem paralisia, a mesa tem recorte apropriado. “Para o aluno autista é preciso plastificar a atividade para ele não rasgar”, explica a professora, mostrando uma impressora que imprime plastificado.

Há ainda uma outra máquina que imprime a prova em tamanho maior para a Jaqueline. Ali na sala, a estudante pode usar o computador, que possui monitor com tela de 32 polegadas. “Tem também a lupa eletrônica, que é como uma web cam. Você conecta para a criança usar e a imagem aparece no computador”, elenca Cristiane.

Para alunos com paralisia, é utilizado um teclado como se fosse uma colmeia, em que eles colocam o dedo no buraco para poderem digitar.

“É um trabalho maravilhoso. Está aumentando o número de crianças com deficiências, os pais estão colocando cada vez mais nas escolas de aula regular porque estão acreditando no trabalho”, observa Cristiane.

O exercício da diferença: Elaine Perez, chefe da Divisão de Educação Especial da Secretaria da Educação (Sedu), que funciona no Centro de Referência em Educação, deu muita aula para crianças com todos os tipos de deficiências.

Conforme ela, onde tem essas crianças o olhar da escola muda. “Sempre tem uma criança cuidadora, que empurra a cadeira.” O que é importante, de acordo com Elaine, é o exercício da diferença. “Como é que a gente aprende a conviver com o outro, ver as próprias limitações e a das outras pessoas?”, questiona.

No passado, o aluno deficiente não ia em passeios promovidos pelas escolas. “Mas mostramos que ele pode ir sim, ele consegue desde que você tenha vontade de levá-lo.

Nós levamos 70 crianças com deficiência para a Fazenda Ipanema e todos aproveitaram muito bem, inclusive os cadeirantes subiram na cruz para enxergar a cidade do alto.”

Desde que foram estabelecidas políticas públicas com relação à pessoa com deficiência, o salto foi imenso, na opinião de Elaine.

“O programa Viver Sem Limite, do governo federal, é forte. O autista, por exemplo, tem direito de ter um cuidador na escola. Nós começamos com cinco cuidadores e hoje já são 68.”

Elaine afirmou que a escola tem de estimular ao máximo os alunos, inclusive os que têm deficiências.

“A escola tem de oferecer um banquete com as melhores coisas e as pessoas vão se deliciar com aquilo que elas quiserem experimentar.”

De acordo com ela, o que é feito por uma criança com deficiência acaba beneficiando todas as outras.

“Quando você pensa em novas formas de ensinar, beneficia a todos porque desenvolve atividades globalizantes e aí está todo mundo dentro.”

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul