Tags

, ,

O ex-prefeito Vitor Lippi (PSDB) e o vereador José Crespo (DEM) já foram adversários, depois se tornaram aliados e nos últimos tempos voltaram novamente a travar um duelo político em campos opostos.

Nada como a versão atribuída a Ulysses Guimarães, que comparava a política às nuvens: uma hora estão de um jeito, outra hora estão de outro.


O que assistimos na terça-feira, durante o encontro entre Lippi e Crespo na Câmara, é um retrato de como a política se move. Lippi era ouvido na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pelos vereadores para investigar 48 obras atrasadas. Crespo, presidente da CPI, bombardeou Lippi com perguntas que pediam esclarecimentos.

Em certo momento, Lippi estava de pé, com o dedo em riste, quase tocando em uma das mãos de Crespo, contestando acusação de falta de lisura. O vereador Paulo Mendes (PSDB) acalmou o ex-prefeito. O vereador Marinho Marte (PPS) manteve-se entre Lippi e Crespo.

Lippi negou qualquer intenção de agredir Crespo fisicamente. Disse que ficou de pé porque não poderia se manter sentado, ouvindo provocações.
Lippi queixou-se: “Ele sempre quis me desqualificar moralmente e o nosso governo (…) sempre foi muito respeitado por todo mundo, menos por ele.”

E Crespo disse que não existem desavenças pessoais da sua parte contra o ex-prefeito, mas acrescentou que o governo de Lippi foi manchado por muitas falhas administrativas e escândalos de corrupção.

Declarando que Crespo é um homem inteligente, Lippi alertou que ele “deveria usar o melhor e não o pior do que tem para a política”. Enquanto isso, Crespo disse que o governo do tucano foi o pior e o mais corrupto da história.

Lippi devolveu, referindo-se a Crespo como um vereador muito chato, que no passado chegou a ter 90 mil votos e nas nas últimas eleições para deputado, em 2010, não conseguiu 30 mil votos.

Crespo, rebatendo, citou os nomes das denúncias de corrupção e outros escândalos da administração do seu adversário.

O problema é que a troca de ofensas colocou em segundo plano o objetivo da CPI, que é apurar as razões do atraso de obras públicas.

As discussões apresentaram a informação de que os engenheiros da Secretaria de Obras da Prefeitura alertaram o governo Lippi sobre os atrasos em parte das obras enquanto ele ainda era prefeito.

Se Lippi e Crespo tivessem dispensado o duelo verbal sobre os seus perfis políticos, teriam tido mais tempo e energia para se dedicarem às discussões efetivas sobre as obras atrasadas.

Em vez disso, o público que acompanhou o debate, pessoalmente ou pela TV Legislativa, viu uma disputa política.

Isto é uma comprovação de que os políticos da cidade se anteciparam à agenda eleitoral oficial e já estão em plena campanha.

A menção feita por Lippi aos votos obtidos pelo vereador do DEM no passado e mais recentemente é outro forte indicador desta constatação.

Este cenário de campanha se repete entre os líderes políticos de São Paulo e também entre a presidente Dilma Rousseff (PT) e o senador Aécio Neves (PSDB).

Nos momentos mais decisivos da troca de farpas entre Lippi e Crespo, a CPI assumiu a conotação de palanque eleitoral. O cálculo de campanha tem relação com os possíveis planos dos dois oponentes para as eleições do ano que vem.

Esta situação faz recordar a briga entre Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch, personagens criados pelo escritor russo Nicolau Gogol para mostrar o quanto as incompatibilidades entre pessoas provocam desgastes inúteis e sem sentido. Quando essas pessoas fazem política, quem perde com isso é a população. Lamentavelmente.

Fonte: Notícia publicada na edição de 24/05/2013 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno A

Anúncios