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O Conselho Estadual do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Consema) aprovou, em 12 de dezembro do ano passado, o parecer técnico favorável da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) sobre o Estudo de Impacto Ambiental da Unidade de Recuperação Energética (URE) a ser instalada na cidade de Barueri, região metropolitana de São Paulo.

É o primeiro projeto de usina de queima de resíduos domésticos aprovado no estado.

No Brasil uma usina semelhante, de pequeno porte, funciona na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na cidade mineira de Unaí uma usina menor ainda carboniza resíduos e o carvão gerado pode alimentar uma termelétrica.

Com todos os seus defeitos e qualidades, o processo de avaliação da URE-Barueri foi encerrado na reunião do Consema de dezembro do ano passado.

A não ser que algo muito forte venha à tona ou que os empreendedores desistam do negócio, a coisa não tem mais volta. Ou seja, a URE-Barueri deve ser a primeira instalação de grande porte no Brasil para a queima de resíduos domésticos.

Os números do empreendimento impressionam. Segundo o Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (disponíveis em http://www.urebarueri.com.br/vizinhanca.htm) serão R$ 160 milhões de reais a serem investidos para uma instalação capaz de queimar 825 toneladas de resíduos domésticos diariamente e botar para funcionar uma usina termelétrica de 17 MW.

Segundo os documentos, atenderá as cidades de Barueri, Santana do Parnaíba e Carapicuíba. A Prefeitura de Barueri calcula que em dois anos a unidade estará começando a funcionar.

As usinas termelétricas de lixo vêm sendo vistas como excelentes alternativas para o lixo de localidades densamente povoadas, exigindo menos área que a tecnologia mais barata de disposição final de resíduos: o aterro sanitário. Existem quase duas mil usinas desse tipo no mundo todo, em especial na Europa.

Eficientes sistemas antipoluição são adotados para que os resíduos não sejam somente transformados em fumaça para serem inalados pela população.

Geralmente, o tratamento dos efluentes gasosos é um dos itens mais caro de projetos desse tipo.

Segundo a Cetesb, as cidades de Barueri, Santana do Parnaíba e Carapicuíba geram, juntas, 425 toneladas diárias de resíduos sólidos domiciliares.

Ou seja, a Usina transformaria todo o resíduo das 3 cidades em algo inerte, as cinzas, que ocupa somente 10% do volume original. Em termos de toneladas a Usina apresenta inclusive uma grande folga, o que permitiria o crescimento das cidades ao longo do tempo (o projeto é que a URE-Barueri funcione por 30 anos) ou mesmo a inclusão do lixo de outras cidades.

Fala-se também da possibilidade até da queima de outros resíduos, como os industriais. Neste caso, novos estudos e licenças devem ser requeridos.

Como esperança de fonte energética a Usina de Barueri não representa muito. É maior que a Usina Verde (3,2 MW), porém menor que a Usina de Itupararanga, que represa o rio Sorocaba e tem potência de 55 MW.

Itaipu tem 14.000 MW. Os defensores do empreendimento não alardeiam a potência da usina de lixo e sim o fato de que representará uma diversificação da matriz energética brasileira. Isso é verdade.

Porém, há vários outros pontos a se discutir, mas um é muito importante: o fato do lixo brasileiro ter características que dificultam uma queima eficiente, devido ao alto teor de umidade.

Sem explicar direito, uma apresentação na internet da Foxx (http://www.hiria.com.br/apresentacoes/0004.pdf), a empreendedora da futura URE-Barueri, diz que a tecnologia não depende de materiais com alto poder calorífico, como papel e plástico.

Pelo contrário: no Estudo de Impacto Ambiental, a empresa promete inclusive dobrar a quantidade de recicláveis separados na cidade de Barueri.

Resta esperar para que seja assim mesmo, pois esses dois são os materiais mais coletados por catadores em sistemas de coleta seletiva no Brasil todo. E queimar uma coisa que pode ser reciclada não parece muito inteligente.

Provavelmente essa será apenas a primeira usina de queima de lixo instalada no Brasil.

Gente querendo fazer algo semelhante tem aos montes e em todos os cantos do país. Parece que está faltando a primeira sair para muita gente criar coragem e tentar.

Podiam criar coragem também para investir em sistemas mais robustos de coleta seletiva e pensar em queimar somente os materiais que nenhuma indústria aceitaria reciclar.

Será que desse jeito haveria interessados?

Sandro Donnini Mancini (www.sorocaba.unesp.br/professor/mancini; mancini@sorocaba.unesp.br) é professor da Unesp de Sorocaba (www.sorocaba.unesp.br) para os cursos de graduação em Engenharia Ambiental, Mestrado e Doutorado em Ciência e Tecnologia de Materiais e Mestrado em Engenharia Civil e Ambiental. Escreve a cada duas semanas, às terças-feiras, neste espaço.

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul

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