As discussões a respeito da televisão pública, embora tragam à tona diferentes pontos de vista quanto a modelos de gestão e possibilidades de articulação entre as instituições, revela consenso, no que diz respeito à responsabilidade com a informação pública de qualidade e ao caráter educacional que nela devem estar presentes.
Nesse contexto, entende-se como educacional o espaço que privilegia a clareza e a pluralidade da informação, estimula o debate, o aprofundamento de idéias e pontos de vista e a participação crítica do cidadão.
Educacional é a televisão que compreende que o término de um programa deve iniciar ou dar prosseguimento a um trabalho cognitivo, ético, valorativo, que segue para além do que foi mostrado na tela e se estende à vida das pessoas e das comunidades.
Cabe à televisão pública, livre do objetivo dos “picos” de audiência e do sensacionalismo, comuns às televisões comercias, transformar sua programação em matéria-prima, mais do que um produto final, para a elaboração reflexiva que a cidadania consciente exige.
Trazer ao debate temas que as televisões comerciais evitam tratar ou tratam de forma parcial, superficial, proporcionar ângulos de visão variados, disponibilizar informações que para os indivíduos e a sociedade, constituem uma ação educativa que reconhece no
público sua capacidade de elaborar e ressignificar, com autonomia, os conteúdos veiculados.
Assim, em um sentido amplo, cabe à televisão pública, um papel educacional para além da oferta de informações. Este papel se desdobra em múltiplas facetas, de acordo com a destinação mais específica de cada emissora e seu público, como é o caso das televisões universitárias, comunitárias ou institucionais.
Com a TV Escola não é diferente. Dentro do compromisso educacional geral, este programa do Ministério da Educação atende às especificidades da relação de ensino e de aprendizagem tendo como espaço privilegiado a escola, em especial, da Educação Básica.
Há dez anos a programação da TV Escola, transmitida por satélite, multiplicada em fitas de vídeo e DVDs, preparando-se para transmissão por IP e para a televisão digital, tem buscado levar para o espaço escolar informação de qualidade que enriqueça e instigue as atividades da sala de aula, bem como abrir espaços de reflexão para professores e gestores quanto à sua prática profissional e a concepção educacional sobre a qual ela se constrói.
Na programação, documentários, animações, entrevistas fazem da TV uma janela que oxigena a relação professor-aluno e que, muitas vezes, constitui o elo mais forte com a ontemporaneidade, com os avanços científicos, com a evolução do pensamento
educacional e a compreensão do homem sobre si mesmo.
Na tela, local e global se combinam, a diversidade e a semelhança funcionam como deflagradores das discussões de que uma sociedade multicultural como a nossa tanto necessita. O macro e o microcosmo encontram formas audiovisuais que colaboram para a compreensão da complexidade do mundo contemporâneo.
Nos programas destinados ao professor, ao profissional de educação, as dificuldades e os desafios aos quais a escola precisa responder são analisados por especialistas e por profissionais das próprias escolas, vivificando a estimulada relação ação-reflexão-ação, tão importante no trabalho pedagógico.
Como se trata de uma televisão direcionada à comunidade escolar, sua programação é organizada de modo a atender a diferentes faixas de ensino, em especial da Educação Básica.
Além disso, incorpora à sua grade, programação dedicada à Educação Especial, cursos de formação continuada para professores, inclusive de idiomas, e ações que se estendem à comunidade escolar – a Escola Aberta, dos finais de semana. Com sinal aberto, transmitido por satélite, está hoje 24 horas no ar, oferecendo diferentes opções de horário para o acesso e a gravação dos programas.
As dificuldades não são poucas, sobretudo em um país diverso e extenso como o nosso. A transmissão por satélite enfrenta a dificuldade da instalação e manutenção de antenas e decodificadores. A criação do programa DVD Escola procura mitigar esse problema fazendo chegar, preferencialmente, a escolas com dificuldades na recepção, um conjunto de DVDs no qual a produção própria da TV Escola e a licenciada por parceiros para essa mídia é reproduzida.
A programação na TV Escola constitui um desafio especial. Há uma grande dificuldade para adquirir programas educativos de qualidade tanto no mercado brasileiro quanto no internacional.
Para atender às especificidades e demandas das Secretarias do MEC dedicadas aos segmentos atendidos, a produção e a co-produção desempenham um papel fundamental. Todas essas soluções têm seu ritmo condicionado às regras do serviço público o que, muitas vezes, não coincide com a dinâmica da programação.
Para que professores e estudantes possam tirar o melhor proveito do material veiculado, a programação precisa ser previamente anunciada, os lançamentos comentados com antecedência suficiente para que possam ser incorporados ao planejamento escolar, permitindo as reproduções que se façam necessárias para tal. Isso implica no envio, às escolas, das grades impressas, das sinopses, de catálogos de acervo, além de publicação na Internet, estendendo ao público em geral, o conhecimento antecipado da programação.
Embora constitua um veículo unidirecional, característica comum à televisão convencional, a TV Escola se vale de outras mídias para garantir a interatividade possível com seu público. As cartas de educadores por todo o país são indicadores para decisões a respeito de reprises e de ofertas de novas séries, programas e até cursos, nos horários que melhor respondam ao interesse da comunidade escolar.
Além do correio convencional, a Internet tem também colaborado, propiciando a manutenção de comunidades virtuais de coordenadores do programa nos estados, cujas tarefas principais são colaborar para a plena utilização do recurso nas escolas e levantar os anseios e o nível de aprovação do canal pelos professores.
Além disso, a escola ganha espaço na tela da televisão. Uma programação especial anual – a semana da poesia – coloca no ar as produções das escolas referentes ao tema. A cada nova edição, tem crescido o número de vídeos inscritos e a escola ocupa mais espaços em seu canal.
Professores e estudantes têm o reconhecimento de seu trabalho autoral através da veiculação de seus vídeos, ratificando a co-autoria como importante estratégia de aprendizagem. Co-autoria que vem sendo estimulada nos programas de capacitação para professores quanto ao uso das tecnologias e linguagens midiáticas e que objetiva fomentar a atividade autoral e a visão crítica das mídias que chegam à escola. Nesse sentido, o advento da televisão digital e a interatividade que ela permite, poderá ser um importante aliado.
Na verdade, a TV Escola já se prepara para a televisão digital. A Série Geração Saúde, por exemplo, constitui um importante experimento de convergência de mídias, de ampliação do que a televisão analógica pode oferecer. Além dos programas da série, uma página específica na Internet propõe leituras e atividades complementares, jogos e pesquisas. Abre, ainda, um canal de comunicação com professores e estudantes, demonstrando que um programa realmente não se esgota em sua exibição.
Outro exemplo de interatividade é o programa Salto para o Futuro. Diariamente, são debatidos por uma mesa composta de professores e especialistas, assuntos relevantes do cotidiano escolar, políticas públicas e temas que, de algum modo, reverberem na relação ensino-aprendizagem.
Transmitido ao vivo pela TV Escola, Salto para o Futuro possibilita que perguntas sejam feitas por telefone e por e-mail e respondidas no ar. Constitui um programa de formação continuada que abre espaço para o debate, ao vivo, entre professores de todo o Brasil e os especialistas convidados. Tem sido, há 15 anos, referência como programa de televisão a propiciar esse nível de interação direta entre professores e palestrantes.
Reunidos em centros de estudo – os Telepostos – analisam os textos dos especialistas antecipadamente publicados na Internet, dão continuidade ao estudo dos temas abordados e sugerem novas temáticas. Alguns estados brasileiros certificam esses estudos e incorporam esta certificação à carreira do magistério. Esse é mais um exemplo da apropriação pelo público escolar de seu canal de televisão.
Os programas de capacitação para o uso das mídias, hoje desenvolvidos prioritariamente em ambientes virtuais de aprendizagem, através da Internet, ganharão maior capilaridade se puderem contar com uma televisão digital interativa, que a um só tempo garanta um maior alcance sem perda do nível de interatividade que os atuais ambientes virtuais de aprendizagem propiciam.
Para tanto, é importante uma efetiva bidirecionalidade comunicacional, através de um canal de retorno que se utilize da própria televisão e permita acesso à pesquisa, à tutoria e à constituição de comunidades virtuais de estudantes, aspectos essenciais a programas a distância de qualidade.
A digitalização dos conteúdos constitui base, também, para o trabalho autoral. Ressignificados pelo trabalho pedagógico, os conteúdos digitais se transformam, pela cooperação de professores e estudantes, em material básico para seus projetos autorais.
E quem mais tira proveito desse processo é a educação que transforma a escola em oficina de autores, capazes de produzir e disseminar conhecimento relevante, proporcionando reconhecimento individual e coletivo para o que ali é produzido.
A longo prazo, essa dinâmica escolar pode, inclusive, revelar vocações profissionais na área de produção de conteúdos educacionais multimídia, contribuindo para o desenvolvimento dessa atividade.
Estes são aspectos que a discussão em torno da televisão pública também deve considerar.
Fonte: Leila Lopes de Medeiros, diretora do Departamento de Produção e Capacitação em Educação a Distância do MEC, foi debatedora na Mesa que discutiu a “Progamação e Modelos de Negócio”, no I Fórum Nacional de TVs Públicas, realizado em Brasília, em maio de 2007
Escrito por hudsonaugusto 